Livro para o Mês de Outubro

Apresentamos o livro para o mês de Outubro de 2006:
“As Perturbações do Pupilo Torless” de Robert Musil
Em “As Perturbações do Pupilo Törless”, o primeiro romance do escritor austríaco Robert Musil, estamos no espaço da angústia, algures perdidos na solidão das palavras. Algures entre o desejo do desconhecido e o bem-estar da estabilidade. O próprio jovem Törless se coloca perante essa ambiguidade: dois mundos despedaçados como o coração de Törless - suspenso entre o desejo e a repulsa, a moral e a irreverência, entre o mundo burguês e a liberdade.
Törless é um adolescente cheio de dúvidas, fechado num colégio interno. Está à procura de alguma coisa - do desejo?, da paixão?, como?, porquê? Mas a angústia chega no final do dia, quando mais uma vez se apercebe de que a vida não lhe trouxe nada de novo.
Torna-se amigo de Reiting e Beineberg. Mas um dia, um quarto miúdo, Basini, rouba dinheiro a Beineberg, que jurará vingança e que, com Reiting, estabelecerá um plano de humilhações sucessivas - até ao golpe final. “Mas de qualquer modo vou matá-lo, só que você voltará à vida. A morte não nos é tão estranha como você pensa; morremos diariamente, no nosso sono profundo e sem sonhos”, diz Beineberg a Basini. Törless ignora tudo, às vezes assiste, em silêncio; às vezes intercede por Basini; às vezes, até, aproveita-se dele, descontrolado e envergonhado de sentir desejo pelo outro.
Figura maior da literatura europeia do séc. XX, Robert Musil (1880-1942) nasce na cidade austríaca de Klagenfurt (Caríntia), no seio de uma família de engenheiros relativamente abastada. Na infância e adolescência frequenta em regime de internato, as escolas militares de Eisenstadt e Mährisch-Weisskirchen. Segue-se uma formação na área da engenharia mecânica na escola politécnica de Brno (Moldávia). Um temperamento irrequieto e uma sensibilidade exacerbada aos problemas que marcam o início do século levam-no até Berlim, onde se dedica ao estudo da psicologia experimental e da filosofia. Mobilizado para a guerra de 1914-18, combate a Itália na frente do Tirol meridional, ao serviço da monarquia austríaca.
A experiência de uma Natureza esmagadora e da sua própria hospitalização como ferido de guerra serviriam de inspiração às três novelas que constituem Drei Frauen (Três Mulheres) , obra vinda a lume em 1924. Mas é só em 1931 que Musil, de novo em Berlim, e agora em dedicação exclusiva à escrita literária, publica o primeiro volume do seu opus magnum , Der Mann ohne Eigenschaften (O homem sem Qualidades).
A obra-prima de Musil, O Homem sem Qualidades, que ele mesmo diagnosticou até à exaustão nos cadernos dos seus Diários, é um romance colocado a par dos grandes romances do princípio do século XX, Ulisses, de Joyce, e Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, quer pela densidade novelística, quer pela metatextualidade criada por uma profunda preocupação reflexiva. Ao sentido revolucionário destes autores, só faltará acrescentar o nome de Franz Kafka.
Confesso que este livro me deixou uma sensação estranha.
Penso que fui um pouco contaminado pelo ambiente do colégio.
É um livro de descobertas, de crescimento. O período da adolescência é um momento de experiências, boas e más, em que os valores transmitidos pelos nossos pais de repente deixam de ser aceites pacificamente como até então e passam a ser questionados na senda da afirmação do eu pessoal.
Existem aspirações, sonhos de realização pessoal, desejos de ser-se admirados, amados, invejados, e o livro mostra até onde se pode ir na tentativa de afirmação individualista.
Penso que é um livro que retrata bem a relação de conflito entre uma moral fundada socialmente e a tentativa de instauração de uma ética individual - uma espécie de “Raskolnikov meets Deus das Moscas”.