Livro para o Mês de Setembro

2006 September 26
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by Nunovsky

Apresentamos o livro para o mês de Setembro de 2006:

“Aparição” de Vergílio Ferreira

 

Quando em 1959 Vergílio Ferreira publicou a primeira edição de Aparição, na colecção “Contemporânea” da Portugália Editora e com uma excelente capa de António Charrua, estava bem longe de supor o êxito que obteria esse seu romance, logo galardoado com o “Prémio Camilo Castelo Branco” da Sociedade Portuguesa de Escritores, e que em quarenta anos tem conhecido sucessivas reedições, está traduzido em várias línguas, foi até hoje motivo de estudos, ensaios e teses de licenciatura, é desde há anos adoptado como livro obrigatório no ensino do Português.
Romance estruturado em redor da descoberta do “eu” e da própria redenção pessoal, a partir da experiência vivida por Alberto Soares, que chega a Évora como professor liceal, toda a estrutura narrativa se desdobra nos limites que mais o obceca nessa descoberta, por entre a surpresa e o alarme irradiante, a inverosimilhança de tudo o que se passa em redor e num meio fechado como o dessa cidade alentejana, na angústia do que de mais essencial o homem coloca em questão.

Notabilizou-se como romancista e ensaísta (Espaço do Invisível, 1965, Invocação ao Meu Corpo, 1969), tendo os seus romances de início sofrido a influência neo-realista (O Caminho Fica Longe, 1943), para prosseguirem no sentido do existencialismo de Sartre e Heiddeger (Mudança, 1949, Aparição, 1959). Simultaneamente lírico e de libelos violentos em relação à sua contemporaneidade, exerce uma reflexão sobre o tempo, romanesco e existencial, que orienta para a valorização da vida (Alegria Breve, 1965), para o protesto em relação a todas as acomodações políticas e sociais (Signo Sinal, 1979) ou para a percepção da articulação entre os opostos do ser humano no seu decurso (morte/vida, beleza/fealdade, sagrado/profano, criação/destruição), em torno das noções da sua existência e do seu limiar (Até ao Fim, 1987, Em Nome da Terra, 1990).

3 Responses leave one →
  1. 2006 October 26
    marta permalink

    Infelizmente não tive opotunidade de ler o livro em sintonia com o clube de leitura, mas também seria a 3ª vez que o teria lido. E, com a mais profunda conviccção, estou certa que teria adorado e descoberto ideias novas, porque snedo este livro de impacto existencialista, tem uma sensibilidade que nos toca, de formas diferentes em diferentes alturas da nossa vida.
    Este é um dos poucos livros que eu posso dizer que me mudou a vida. Dito isto, nada na minha vida mudou em função do livro, mas a “Aparição” tocou-me tanto que é frequente pensar no livro. Principalmente quando estou muito feliz, é frequente lembrar-me e murmurar e sorrir para mim própria, numa private joke só minha, como é lindo “sentir nas visceras a aparição fantastica das coisas”. Esta frase acompanhou-me sempre, desde que a li pela primeira vez… num verão quente.

  2. 2006 November 18
    Nunovsky permalink

    Confesso que ando às turras com este livro desde os tempos de liceu. Não fui obrigado a lê-lo, em função de ter um currículo onde tal não era necessário, mas penso que nunca deixou de estar associado àquela categoria de “livro chatos que sou obrigado a ler em oposição a todos os outros que tenho realmente vontade de ler”.
    Foi preciso um clube de leitura para ultrapassar esta minha grande resistência e pegar num livro que me deu bastante prazer nas horas que passámos juntos.
    O melhor que posso dizer do livro será: fez-me pensar. Deixou em mim um sentimento que perdurou para além da leitura, talvez essa “aparição fantástica das coisas” de que fala a Marta mais acima.
    É um livro sobre o sentimento de estar no mundo, de descobrir o eu que existe, vive, respira, marcando uma indivualidade no mundo que muitas vezes se dissipa nas máscaras que se utilizam.
    Alberto Soares procura esta afirmação do eu, esta “aparição das coisas” que parece um coisa tão ténue que apenas poderemos ter um breve vislumbre, como um reflexo no espelho. Ele procura viver as coisas não estando mais separado de si, procurando a completitude que lhe escapa desde o confronto com a noção da mortalidade das coisas.
    Penso que neste romance, a noção de vida caminha de braço dado com o confronto com a morte: a alienação causada pela morte de um ente querido, a aceitação da sua inevitabilidade, a fatalidade do acaso, até a própria tentativa de domínio da vida através do poder de matar alguém.
    Tudo isto funda um romance da descoberta deste ser no mundo que, como a vida em geral, não termina com o final do livro.

  3. 2007 September 4

    Este é um daqueles livros que li e reli várias vezes, pela profissão, sendo professora de português sou obrigada a dá-lo todos os anos (excepto a partir deste ano em que passaremos ao “Memorial do Convento”) mas também porque nunca me cansou relê-lo e sempre descobri coisas novas quando o relia. Devo afirmar que fugi à sua leitura na faculdade por injustamente julgar antes de o ler, na altura não me considerava adepta de Vergílio Ferreira. Hoje em dia é um autor que aprecio, e tenho também um enorme apreço pelo livro “Em nome da terra”.
    Tive o prazer de um dia encontrar num alfarrabista lisboeta uma terceira edição da obra “Aparição” dedicada pelo próprio autor ao antigo propietário do livro.
    Concordo com a Marta, a frase “sentir nas vísceras a aparição fantástica das coisas” fica e marca. Assim como fica “Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro…”

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