Livro para o Mês de Agosto

Apresentamos o livro para o mês de Agosto:
“A Mancha Humana” de Philip Roth
“Lessons of the Masters” de George Steiner foi uma leitura preciosa e remeteu-me para uma obra-prima de Philip Roth que me escapara “The Human Stain”.
João Lobo Antunes, Mil Folhas
A Mancha Humana é a história de um homem, Coleman Silk, que foge às suas raízes, procurando ludibriar o seu passado que lhe agrilhoava os planos de vida, tornando-se professor e reitor na Universidade de Athena. No final da sua vida, o seu impecável percurso académico é manchado por uma acusação de racismo. Demitindo-se da Universidade, e após a morte da sua mulher, tem uma relação com uma outra mulher, Faunia, com metade da sua idade, ex-mulher de um veterano do Vietname, Les Farley. No entanto, Delphine Roux, uma das principais figuras no processo movido pela Universidade contra o ex-reitor, continua a seguir-lhe os passos.
Nathan Zuckerman é o narrador-personagem deste romance, fazendo a ponte entre a construção das vidas e motivações destas personagens, contrastando-se a si próprio com a aparente juventude de Coleman, levando-o a reflexões sobre a sua vida de eremita desde a sua operação à próstata.
Cada personagem com as suas diferentes motivações para a construção de uma imagem que pode ou não corresponder ao que a sociedade espera destes, todas diferentes e extremamente ricas na diversidade das suas angústias perante a existência.
A sinopse realmente não faz juz à grande obra contida em “A mancha humana”.
Posso dizer que para mim foi, de facto, uma descoberta fantástica ler este livro de Philip Roth e que correspondeu às expectativas que tinha criado em torno do autor, considerado actualmente como um dos maiores escritores americanos vivos.
Sob o manto de um processo de acusação de intolerância racial que leva ao afastamento do professor Coleman Silk, Roth constrói uma narrativa onde se cruzam as histórias pessoais dos diferentes personagens e onde descobrimos que nem tudo o que parece realmente é.
O tema que nos é apresentado inicialmente, o racismo e a intolerância, transforma-se lentamente numa profunda dissertação sobre o tema da identidade e da construção das máscaras que usamos na sociedade.
Todas as personagens apresentadas escondem um segredo que ao nos ser revelado apresenta-nos as contradições mais íntimas que tornam presentes e vivas cada uma das figuras que vamos encontrando ao longo do livro.
Roth questiona os tabus sociais, desvenda as hipocrisias presentes nas sociedades - é interessante observar que a acção desenrola-se em pleno processo de impugnação do presidente Clinton por perjúrio.
É de facto um livro magistral. Existe um filme inspirado no livro chamado “A culpa humana”, com a Nicole Kidman e o Anthony Hopkins, mas eu até tenho receio de o ver pois tenho quase a certeza de que não estará à altura do livro.
Irei lê-lo outra vez. Não tenho dúvidas.