Livro para o Mês de Maio

2006 May 14
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by Nunovsky

Apresentamos o livro para o mês de Maio

“Memórias de Adriano” de Marguerite Yourcenar

 

«E é aqui, neste intervalo entre o desembarque do enfermo e o momento da sua morte, que se situa uma série de acontecimentos que me será sempre impossível reconstituir e sobre os quais, todavia se edificou o meu destino. Os meus inimigos acusaram Plotina de se ter aproveitado da agonia do imperador para fazer traçar àquele moribundo as breves palavras que me legavam o poder. Prefiro, sem dúvida, supor que o próprio Trajano, fazendo antes de morrer o sacrifício das suas preferências pessoais, deixou de sua livre vontade o império àquele que apesar de tudo considerou o mais dingo. Mas devo confessar que, aqui, o fim me importava mais que os meios…»

Memórias de Adriano tem a forma de uma longa carta dirigida pelo velho imperador, já minado pela doença, ao jovem Marco Aurélio, que deve suceder-lhe no trono de Roma. Uma carta em que lhe promete contar toda a verdade, sem as reservas próprias da história oficial. pouco a pouco, através desta serena confissão, suscitada pelo pressentimento de que a morte se aproxima, ficamos a conhecer os episódios decisivos da vida deste homem notável, que soube pacificar o império, tornar a sociedade romana um pouco mais justa, melhorar a sorte das mulheres e dos escravos. E que foi simultaneamente uma das mais cultas e sábias figuras do seu tempo.

Marguerite de Crayencour nasceu em Bruxelas em 1903 numa família aristocrática, de mãe belga , que morreu dias depois do seu nascimento, e de pai francês. Desde muito cedo aprendeu inglês, latim e grego. Em 1914 parte com o pai para Paris e, desde essa altura, a maior parte da sua vida vai vivê-la em viagens, sobretudo através da Itália e da Grécia. Começou a escrever na adolescência e continuou a fazê-lo depois da morte do pai que a deixou numa situação financeira confortável. Levou vida de nómada até ao eclodir da 2ª Guerra Mundial, altura em que se fixou nos Estados Unidos. Naturalizou-se americana em 1947. O nome Yourcenar é um anagrama imperfeito do seu nome original Crayencour. As obras literárias de Yourcenar são notáveis pelo seu estilo clássico, a sua erudição e subtileza psicológica. Nos seus livros mais importantes, recria eras e personagens do passado, meditando sobre o destino humano, a moralidade e o poder. A sua obra prima Memórias de Adriano (1951) é um romance histórico sobre as memórias fictícias do imperador do século II . Outro romance histórico, A Obra ao Negro (1968) é uma biografia imaginária de um alquimista e erudito do século XVI. Yourcenar traduziu numerosos romances ingleses e americanos para a língua francesa. Em 1981 torna-se a primeira mulher membro da Academia Francesa, instituído em 1635 por Richelieu. Para se ser membro da Academia Francesa é necessário ter a nacionalidade francesa. Yourcenar tinha-se tornado americana, no entanto, o Presidente da República Francesa concedeu-lhe a dupla nacionalidade em 1979. Em Outubro de 1987, foi-lhe atribuído o Grande Prémio Escritor Europeu do Ano, em Estrasburgo, durante o I Festival Europeu de Escritores. Não se assumindo como fazendo parte de nenhuma corrente literária, Marguerite Yourcenar é mundialmente consagrada como uma das maiores escritoras contemporâneas.

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  1. 2006 June 27
    Nunovsky permalink

    Não sei porque é que de cada vez que pretendo escrever qualquer coisa sobre o Livro “Memórias de Adriano” existe um bloqueio em mim que faz com que escreva e apague e volte a escrever e no final deixe tudo em branco novamente. Hoje não vai ser assim, espero…
    É de facto uma obra épica que procura estabelecer a grandeza de um homem que marcou o rumo da história e cujas obras e influência ainda perduram hoje em dia (veja-se o caso do êxodo dos judeus e a criação da palestina). Mas o que me parece mais original e ambicioso neste romance hsitórico tem a ver com o facto de Marguerite Yourcenar ir para além dos cânones normais do romance histórico e escrever a história deste homem em tom intimista e quase confessionário, permitindo-nos construir uma personagem que nos marca pelos seus feitos e grandeza mas igualmente pelos seus erros, pelas suas paixões, enfim, por aquilo que o torna humano.
    A carta extensa ao seu sucessor Marco Aurélio equivale à transmissão da sua herança cultural, do ideal que era Roma enquanto encruzilhada de povos e amálgama de culturas reunidas à volta do seu eixo grego.
    As suas memórias são mais do que um conjunto de recordações, de uma história pessoal, são no fundo o seu legado para o futuro, pois enquanto a memória de um homem perdurar uma parte de si continua a viver garantindo assim a verdadeira imortalidade.
    Um livro forte, motivante e de certeza daqueles que hei-de reler novamente.

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