Livro para o Mês de Abril

Apresentamos o livro para o mês de Abril de 2006:
“O Amante de Lady Chaterly” de D. H. Lawrence
No ano em que foi publicado O Amante de Lady Chaterly (1928), por uma pequena editora de Florença, o Sunday Chronicle considerava o livro de D.H. Lawrence “um dos romances mais abomináveis jamais escritos”. Seis dias depois, o Jornal Britânico John Bull qualificava-o igualmente com termos pouco simpáticos, como “bestialidade”, depravação indescritível” ou mesmo “lixo”. A negativa e escandalizada recepção da obra na altura em que surgiu - em 1932 foi publicada em Inglaterra uma versão censurada, e foi apenas em 1960 que o texto completo conseguiu circular livremente pelo país - não impediu, porém, que se tornasse no romance mais célebre do autor britânico.
O tema do livro - uma mulher que se apaixona por um homem de classe inferior, apesar dos constrangimentos sociais - não era novo na produção de Lawrence. Mas em O Amante de Lady Chaterly, além das muito faladas manifestações amorosas entre a protagonista e o caseiro Mellors, explode a amarga denúncia de uma sociedade industrializada, mecânica, fria e repressiva, que se opõe a toda e qualquer forma de espontaneidade. Constance, a princípio conformada com essa rigidez monótona da classe senhorial britânica e do seu marido paraplégico Clifford, descobre o corpo masculino do amante e o seu próprio corpo, numa espécie de ritual de iniciação aos prazeres da carne e dos afectos.
David Herbert Lawrence nasceu em 1885, em Eastwood, Reino Unido. Filho de um mineiro alcoólico e de uma professora primária, teve uma infância difícil, marcada pela pobreza e pelas discussões familiares. Contudo, os laços afectivos com a mãe, que encorajou o interesse de Lawrence pelas artes, perduraram até à morte desta, em 1910. Frequentou a Nottingham High School e depois a Nottingham University, concluindo a sua licenciatura com 22 anos. Após a publicação de poemas da sua autoria na English Review, estreou-se como romancista com o livro Pavão Branco, em 1911. Um ano depois, conhece Fireda von Richthofen - com quem veio a casar - e, em 1913, publica Filhos e Amantes, claramente autobiográfico. Durante as duas décadas anteriores à sua morte, viaja ininterruptamente com a sua mulher para países como Itália, França, Estados Unidos, Austrália ou México, onde viveu durante dois anos. Pelo caminho, vai publicando livros como The Rainbow (1915), The Lost Girl (1920), A Serpente Emplumada (1926) ou O Amante de Lady Chaterly (1928), o seu último romance. Morre em Vence, França, vítima de tuberculos, no dia 2 de Março de 1930.
Olá Nuno. Gostei deste teu cantinho e já o coloquei nos favoritos. Voltarei para beber mais um pouco das tuas sugestões. Fica bem. Namasté.
Senti este romance como o encontro e desencontro das energias masculinas e femininas. A história contrapoe o tempo da sociedade industrializada, fria e mecânica, ao tempo do calor das ideias, que pouco a pouco se tornam monótonas,no mundo que Lady Chaterly partilha com Clifford. É uma sociedade dos homens,representando um tipo de energia masculina, virada para o racional. Lady Chaterly cansa-se e descobre a energia feminina: nos bosques e nas carícias de Mellors. O encontro da energia feminina com a masculina, culmina no casamento simbólico dos dois.
Mais vale tarde do que nunca!
Confesso que tive algumas dificuldades em concluir a leitura deste livro. Penso que para cada livro existe uma altura indicada para ser lido. Se calhar este não seria o momento certo para mim.
De certo modo, tive de lutar um pouco comigo mesmo para completar a leitura do romance.
Confesso que não tenho muita paciência para intrigas palacianas ou romances do género “Reviver o passado em Brideshead” e, de facto, o início do livro remeteu-me um bocado para este cenário. A família britânica típica e aristocrática, em que a manutenção das aparências é mais importante do que o cultivo de relações pessoais verdadeiramente genuínas.
Se calhar a desvitalização que acompanhou Connie no primeiro período do livro também me contaminou um pouco. A secura das relações, a austeridade das descrições, a futilidade aristocrática foram minando a vitalidade da protagonista e também um pouco a minha leitura.
Posteriormente, com o evoluir da história e a introdução da relação com Mellors, o romance ganhou outras cores para mim.
Concordo com a apreciação feita pela Sandra, de que chocaram dois mundos, ou melhor, dois tempos: um mundo civilizado, industrial e moderno com um mundo mais bucólico, rural e fundado na terra.
Poderia dissertar aqui mais um pouco sobre o mito dionisíaco e a celebração da fertilidade e da vitalidade do corpo que lhe está associado ou sobre a filosofia tântrica da união sexual como momento de êxtase místico, mas acho que não vale a pena.
Resta-me apenas dizer que o que começou como um livro chato e de difícil digestão se tornou num romance terno sobre a relação mais íntima entre um homem e uma mulher.