Livro para o Mês de Março

2006 March 3
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by Nunovsky

 

Apresentamos aqui o livro para o mês de Março de 2006:

 

“O Duplo” de Fiódor Dostoiévski

 

Dostoiévski publicou O Duplo em 1846, quando contava apenas 24 anos, poucos meses depois da publicação do seu primeiro romance Gente Pobre. Muitas das suas inquietações estão já presentes nesta história de um funcionário público obcecado pela existência de um colega, réplica de si próprio, que lhe usurpa a identidade, acabando por levá-lo à insanidade mental e à ruptura com a sociedade.

A afirmação da liberdade individual contra instituições e normas existentes para conter os impulsos de uma interioridade caótica é precisamente o tema chave deste romance, ainda que também sobressaia a a compaixão pela condição dos humilhados, outra recorrência na obra do autor.

Este romance é um caso de ruptura com convenções literárias que foi longe de mais para poder ter sido imediatamente bem aceite pelos seus contemporaneos, só mais tarde se reconhecendo o seu potencial revolucionário, intensamente criativo e pulsional, assim como a riqueza a nível dos recursos estilísticos, que Nabokov comparou aos de James Joyce.

Fiódor Dostoiévski foi um dos grandes percursores, como Emily Brontë, da mais moderna forma de romance, exemplificada em Marcel Proust, James Joyce, Virginia Woolf, entre outros. Filho de um médico militar, aos 15 anos é enviado para a Escola Militar de Engenharia de S. Petersbugo. Aí, desperta-lhe a vocação literária ao entrar em contacto com escritores russos e com a obra de Byron, Victor Hugo e Shakespeare. A sua estreia na Literatura acontece em 1846 com a obra Gente Pobre. Foi condenado à morte em 1849, por implicação numa suspeita conjura revolucionária. A pena foi-lhe comutada para trabalhos forçados na Sibéria. Amnistiado em 1855, reassumiu a actividade literária e em 1866, com Crime e Castigo, marca a ruptura com os liberais e radicais a que tinha sido conotado.

6 Responses leave one →
  1. 2006 March 16
    marco permalink

    aqui sim esta um grande blog…
    adorava (teclar)neste caso com a mente que o fez esta de parabens sim senhor

  2. 2006 March 19

    Parece que tens a leitura em dia, entao diz-me se ja ouviste falar num escritor portugues de nome, Rui Manuel de Almeida

  3. 2006 March 22
    Marta permalink

    Em primeiro lugar queria começar mal, ao fazer uma pequena crítica á escolha deste livro… Acho que seria importante ter em conta como critério de selecção a disponibilidade do livro nas bibliotecas. Como sou um bocado reticente em comprar todos os livros que leio (não tenho, infelizmente, nem capacidade financeira nem espaço para o efeito!) costumo requisitá-los numa biblioteca pública. A dificuldade foi que a biblioteca de Portimão, pelos vistos, não possui este livro; e só o consegui requisitar na Biblioteca Municipal de Coimbra e com alguma sorte já que é era o único exemplar que dispunham…bem isto foi só uma pequena critica construtiva…mas adiante…
    Acabei de ler o livro ontem, e sinceramente, estou confusa, não sei se gostei. Mas acho que não… não me lembro ter lido um livro e ficar tão perplexa ao ter que lhe atribuir um juízo de valor. A escrita é acessível, talvez até demasiado (mas isso também pode o trabalho da tradução, uma pessoa não tem bem a noção a escrita de um autor, a não ser que saiba ler a sua língua), a história que podia ser de suspense e ter um travo gostoso a “1984” engraçado, mas a história está contada de uma maneira tão simples e esquisita (sim, é essa mesmo a palavra) que não sei o que pensar. O personagem é fraco, e a descrição das pessoas e paisagens demasiado simples e pouco dotada de inspiração literária; e a insistência do autor em chamar a personagem principal de “nosso herói” irrita-me profundamente, dá ao livro uma sugestão a livro de segunda. Muito para além disso, o desenvolvimento da história não faz sentido, as pessoas do seu circulo não aceitariam um “duplo” assim de modo tão fácil e simples. A história, na minha opinião,
    Necessita de pormenores vitáveis para que o enredo se torne mais real e assim seja capaz de nos comover com a vida e sentimentos da personagem…
    No entanto admito que se talvez não tenha percebido o livro, talvez o momento de o ler, a sua capacidade me tocar, ainda não tenha chegado…ás vezes acontece…um livro deliciar-nos á segunda vez quando á primeira não nos dize nada (ou ao contrário um livro que adorámos ler pode dizer-nos muito pouco quando buscamos nele o prazer da segunda leitura…).
    Alguém me explique o que gostou no livro… talvez me contagiem com pormenores que me escaparam…

  4. 2006 March 22
    Marta permalink

    Acabo de ler o que acabei de escrever e peço desde já desculpa pelos erros, mas escrevi o comnentário a partir de um computador da minha fac., cujo teclado, enfim, já teve melhores dias… e hoje foi um dia muito cansativo para mim (recebi uma má notz de um exame…mas pronto a vida continua…)Perdoem-me as repetições e omissões de letras..
    Por exemplo, deve-se ler promenores vitais

  5. 2006 April 1
    Anonymous permalink

    Uff! Acabei de ler há pouco o Duplo. Dostoievski é um autor que muito admiro desde os meus 15 anos de idade, e que acho que não deixa ninguém indiferente. Assim é, que partilhando os sentimentos da Marta, também tive dificuldade em simpatizar com esta leitura. Confesso que
    a determinada altura até a pus de parte, com algum sentimento de repulsa.
    Senti a opressão dos pensamentos persecutórios do protagonista, a sua angústia fragmentada, chegando a um ponto, que tal como Goliadkin, já não a podia suportar mais. Só me lembro remotamente de sentimento parecido na leitura de Crime e Castigo.
    Ora, neste romance, Dostoievski não foge às suas preocupações entre o bem e o mal; assim como às suas interrogações sobre o sentido da vida e o destino humano, principalmente o destino dos inconformados, pobres, loucos, indigentes.
    O ambiente também é cinzento, cortado a nevões e ventos frios condicente com um estado de alma inquieto. Mas aqui, passa-se ao inquietante, a visão do homem interior que se nos oferece é ainda mais tortuosa, onde as noites são povoavas de pensamentos e visões aterradoras, os dias de deambulações, monólogos e diálogos estranhos e intrigantes.
    Goliadkin sofre por não conseguir ser fora do seu pensamento caótico. É um homem dividido em dois. Sofre por um “duplo” que consegue tudo aquilo que ele não consegue realizar, mas, mesmo assim, divide-se entre a inveja e a necessidade de atenção e afecto.
    Acho que a repulsa sentida a dado momento por esta leitura, simbolizou a aversão inconsciente para com um estado de ausência do sentido de si próprio como pessoa inteira e única, algo de inconcebível. Mas, num segundo tempo, fiquei-me pela compaixão por tão grande sofrimento. Acho que é por esta mesma razao, que Dosteievski trata o personagem principal por “nosso herói.” Repararam como Goliadkin quase se apaziguava sempre que por momentos sentia que era alvo de atenção? No fundo, queria ser tratado como tratava em alguns momentos Petruska, alguns funcionários, ou os cocheiros: “Meu querido..; meu amigo…” Amizade e amor que todos nós desejamos!
    Sandra Cardäo

  6. 2006 April 17
    Nunovsky permalink

    Peço desde já desculpa pelo tempo que demorei até lançar aqui o meu comentário sobre o livro, mas andei um pouco ocupado e não tive disponibilidade temporária nem mental para o fazer. Mas, como mais vale tarde do que nunca, aqui vai.
    Em primeiro lugar, gostaria de dizer que sou um absoluto fã do Dostoiévski e que qualquer comentário meu será automaticamente enviesado por esta inclinação pessoal para o autor.
    Talvez seja por isso, o único nesta lista de comentários que afirma sem quaisquer dúvidas que gostou bastante do livro.
    Este livro foi o segundo escrito pelo autor que teria 25 anos de idade quando o terminou. Já se vislumbram os recursos estilísticos que o caracterizam, nomeadamente a escrita de dentro do personagem, sem grandes descrições externas, e um sentido de fatalidade no cumprimento do destino dos protagonistas. No entanto, como é óbvio, ainda é um livro do seu período de formação e respeita à sua juventude, pelo que ainda não poderá ser considerado uma obra maior do autor. As influências na sua escrita ainda não são totalmente transparentes, pelo que ainda se vislumbram traços gogolianos, uma coloração à la contos de São Petersburgo, que transparece ao longo da leitura.
    Centrando-me no livro em si, considero que o livro em si é uma pequena tragicomédia. Tem todo um lado cómico, nomeadamente no ridículo das situações em que o protagonista se envolve, cuja responsabilidade é absolutamente sua e não de qualquer influência exterior como o herói insiste em vislumbrar. Por outro lado, existe um sentimento de fatalidade no seu destino que funda o lado trágico do romance, concretizado com o estado final de loucura do protagonista.
    Goliádkin é um anti-herói, porque de herói não tem absolutamente nada. Não é especialmente inteligente, é um homem fraco (não uma personagem fraca no sentido da construção literária), sem noção do ridículo, que vai caindo em espiral ao longo do desenrolar do romance. O facto do narrador o intitular de “o nosso herói” ainda mais acentua o lado tragico-cómico da personagem, pois este herói ninguém admira nem inveja, apenas nos provoca um sentimento de compaixão perante a evolução da sua caída em desgraça. Os seus projectos pessoais, as suas ambições, a elevada noção da sua rectidão moral, não passam de castelos no ar construídos pelo protagonista como modo de negar uma crescente inadaptação social e um isolamento face aos outros que é concretizado no seu afastamento e encarceramento final.
    Para mim pessoalmente, o duplo não existe verdadeiramente, é apenas fruto da sua imaginação, ou seja, uma alucinação ou delírio do personagem. Aliás, à medida que fui avançando no livro, foi crescendo essa minha convicção. O início do livro, com a consulta ao médico, avança algumas pistas nesse sentido dando a entender que existiria alguma fragilidade psicológica no próprio. O surgimento do duplo deu-se igualmente após uma ocorrência de grande exigência emocional para o herói, dando noção de uma ruptura interna que é concretizada com o surgimento do duplo. Duplo este que é realidade externa contaminada com partes do próprio - um objecto bizarro e persecutório - como alucinação e irrealidade.
    O avançar da história faz crescer as tendências paranóides do “nosso herói” e aprofunda o delírio ao ponto de em determinado momento não sabermos o que é realidade ou fantasia e entramos no campo da loucura.
    Enfim, espero que esta minha contribuição tenha oferecido um ponto de vista diferente sobre o livro em questão.

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