
Apresentamos o livro do Clube de Leitura para o mês de Novembro de 2009:
“Pedro Páramo” de Juan Rulfo
“Pedro Páramo” é um dos romances mais importantes do séc. XX e, a par de “Cem Anos de Solidão”, o romance de língua espanhola mais lido universalmente, sendo reconhecido como uma pequena pérola da literatura.
Em “Pedro Páramo”, o narrador, Juan Preciado, parte em busca do seu pai - Pedro Páramo - depois da sua mãe morrer. Leva no corpo o desejo de lhe cobrar caro o esquecimento e abandono a que os votou.
«Quem é Pedro Páramo?», pergunta quando se aproxima de Comala. «Um rancor vivo», respondem-lhe. Juan Preciado é recebido por Eduviges, uma velha que já o esperava porque a sua mãe, Dolores Preciado, a tinha avisado. «Mas a minha mãe morreu», diz Juan. «Então era por isso que a sua voz estava tão fraca, como se tivesse de percorrer uma distância enorme para chegar até aqui», responde-lhe Eduviges. E é assim que prossegue a aventura num terra onde não se sabe quem está vivo ou morto ou onde começa a realidade e acaba a imaginação. Há todo um rol de personagens enigmáticas que vão aparecendo ao longo da história. Todos têm algo a contar sobre Pedro Páramo, a erva daninha de Comala, que tudo destruiu e a quem todos estão, bem ou mal, ligados.
Bem ou mal ligados a Pedro Páramo também ficam os leitores: «Mutis deu-me aquele pequeno livro. Não dormi naquela noite. Não consegui ler outro livro durante um ano. Revolucionou a minha escrita, ensinou-me quase tudo o que sei hoje», conta Gabriel García Márquez. É impossível ler Cem Anos de Solidão e Pedro Páramo e não encontrar semelhanças. A estrutura das duas histórias é muito idêntica e é óbvio que este livro influenciou a escrita da grande obra-prima de Márquez.
Pedro Páramo pertence ao que se costuma designar por ‘realismo mágico’ e, por isso, custa imaginar que a ideia para esta história cruel poderá ter partido de alguma situação real. Mas infelizmente parece que a vida de Juan Rulfo não foi nada fantástica: «Tive uma infância muito dura, muito difícil. Uma família que se desintegrou muito facilmente num lugar que foi totalmente destruído. O meu pai e a minha mãe e mesmo todos os irmãos do meu pai foram assassinados. Vivi, portanto, numa zona devastada», conta Juan Rulfo em Los Muertos no tienen ni tiempo ni espacio, diálogo com Juan Rulfo.
Frequentemente citado por autores como Jorge Luís Borges, Alvaro Mutis, Carlos Fuentes, Júlio Cortázar e Octavio Paz, Pedro Páramo é uma das obras mais importantes da literatura universal. Autores de outros idiomas, como Günter Grass, Susan Sontag e Gao Xingjian, também fazem parte da lista de admiradores de Juan Rulfo.
Em Portugal, a primeira edição de Pedro Páramo coube às Edições 70, numa colecção coordenada por Eduardo Prado Coelho, nos anos 80. Depois, não houve reedição e encontrar este livro num alfarrabista tornou-se uma verdadeira aventura. Até que a Cavalo de Ferro, com o bom gosto literário a que nos habituou, tomou conta do assunto em 2003 e apresenta-nos agora uma bonita segunda edição.
Juan Rulfo (1918-1986) figura, apesar de brevidade da sua obra, entre os grandes renovadores do romance latino-americano do século XX. Publicou apenas duas obras de ficção: El llano en llamas (1953) e Pedro Páramo (1955). Este último arrecadou os Prémios Cervantes e Príncipe das Astúrias e consagrou Juan Rulfo como um dos maiores autores da literatura universal.




