Livro para o Mês de Novembro

2009 November 16
Posted by Nunovsky

juan-rulfo

Apresentamos o livro do Clube de Leitura para o mês de Novembro de 2009:

“Pedro Páramo” de Juan Rulfo

“Pedro Páramo” é um dos romances mais importantes do séc. XX e, a par de “Cem Anos de Solidão”, o romance de língua espanhola mais lido universalmente, sendo reconhecido como uma pequena pérola da literatura.

Em “Pedro Páramo”, o  narrador, Juan Preciado, parte em busca do seu pai - Pedro Páramo - depois da sua mãe morrer. Leva no corpo o desejo de lhe cobrar caro o esquecimento e abandono a que os votou.
«Quem é Pedro Páramo?», pergunta quando se aproxima de Comala. «Um rancor vivo», respondem-lhe. Juan Preciado é recebido por Eduviges, uma velha que já o esperava porque a sua mãe, Dolores Preciado, a tinha avisado. «Mas a minha mãe morreu», diz Juan. «Então era por isso que a sua voz estava tão fraca, como se tivesse de percorrer uma distância enorme para chegar até aqui», responde-lhe Eduviges. E é assim que prossegue a aventura num terra onde não se sabe quem está vivo ou morto ou onde começa a realidade e acaba a imaginação. Há todo um rol de personagens enigmáticas que vão aparecendo ao longo da história. Todos têm algo a contar sobre Pedro Páramo, a erva daninha de Comala, que tudo destruiu e a quem todos estão, bem ou mal, ligados.

Bem ou mal ligados a Pedro Páramo também ficam os leitores: «Mutis deu-me aquele pequeno livro. Não dormi naquela noite. Não consegui ler outro livro durante um ano. Revolucionou a minha escrita, ensinou-me quase tudo o que sei hoje», conta Gabriel García Márquez. É impossível ler Cem Anos de Solidão e Pedro Páramo e não encontrar semelhanças. A estrutura das duas histórias é muito idêntica e é óbvio que este livro influenciou a escrita da grande obra-prima de Márquez.

Pedro Páramo pertence ao que se costuma designar por ‘realismo mágico’ e, por isso, custa imaginar que a ideia para esta história cruel poderá ter partido de alguma situação real. Mas infelizmente parece que a vida de Juan Rulfo não foi nada fantástica: «Tive uma infância muito dura, muito difícil. Uma família que se desintegrou muito facilmente num lugar que foi totalmente destruído. O meu pai e a minha mãe e mesmo todos os irmãos do meu pai foram assassinados. Vivi, portanto, numa zona devastada», conta Juan Rulfo em Los Muertos no tienen ni tiempo ni espacio, diálogo com Juan Rulfo.


Frequentemente citado por autores como Jorge Luís Borges, Alvaro Mutis, Carlos Fuentes, Júlio Cortázar e Octavio Paz, Pedro Páramo é uma das obras mais importantes da literatura universal. Autores de outros idiomas, como Günter Grass, Susan Sontag e Gao Xingjian, também fazem parte da lista de admiradores de Juan Rulfo.

Em Portugal, a primeira edição de Pedro Páramo coube às Edições 70, numa colecção coordenada por Eduardo Prado Coelho, nos anos 80. Depois, não houve reedição e encontrar este livro num alfarrabista tornou-se uma verdadeira aventura. Até que a Cavalo de Ferro, com o bom gosto literário a que nos habituou, tomou conta do assunto em 2003 e apresenta-nos agora uma bonita segunda edição.

Juan Rulfo (1918-1986) figura, apesar de brevidade da sua obra, entre os grandes renovadores do romance latino-americano do século XX. Publicou apenas duas obras de ficção: El llano en llamas (1953) e Pedro Páramo (1955). Este último arrecadou os Prémios Cervantes e Príncipe das Astúrias e consagrou Juan Rulfo como um dos maiores autores da literatura universal.

Livro para o Mês de Outubro de 2009

2009 October 13
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Apresentamos aqui o livro do Clube de Leitura para o mês de Outubro de 2009:

“Debaixo do Vulcão” de Malcolm Lowry

O Cônsul não estava realmente a falar. Pelo menos, não parecia que estivesse. Não articulara uma palavra que fosse. Era tudo uma ilusão, um redemoinhante caos cerebral do qual, saiu por fim, nesse mesmo instante, bem ordenado e completo, o seguinte:
- O acto de um louco ou de um bêbedo, camaradão - disse - ou o de um homem submetido a uma violenta excitação parece menos livre e mais inevitável para aquele que conhece a condição mental do homem que praticou a acção, e mais livre e menos inevitável para aquele que a não conhece.

“Debaixo do Vulcão” é um romance com características autobiográficas, escrito pelo inglês Malcolm Lowry em 1947,  inspirado no período em que viveu no México com a sua esposa, 11 anos antes. Aborda a história do ex-cônsul Geoffrey Firmin, no seu último dia na fictícia Quauhnahuac (inspirada em Cuernavaca), no México, que coincide com as comemorações do Dia dos Mortos. Quando Lowry escreveu ao seu editor afirmando que tinha a convicção de que “Debaixo do Vulcão” iria ser um livro verdadeiramente bom, estava longe de imaginar o real impacto desta obra, livro que o consagraria como escritor e que seria considerado como uma das obras literárias mais importantes do século XX. Tudo o que tem a ver com o livro é motivo de evocações e romarias por parte dos seus leitores mais entusiastas, vindos de todo o mundo para visitar o méxico, deambular pelas ruas de Cuernavaca, entrar nas suas cantinas e experimentar algumas das 77 bebidas alcoólicas diferentes consumidas pelo ex-cônsul e restantes personagens, naquela que é uma das mais desesperadas e etílicas narrativas de todos os tempos.

De início, o romance foi descaradamente autobiográfico, fruto e reflexão do México e das experiências que aí teve, desde os decadentes jardins de Cuernavaca e as cantinas onde podia afogar-se em mescal por alguns pesos, até ao terrível episódio da prisão e ao delirium tremens em Oaxaca, depois de ter sido abandonado pela mulher. Uma descida aos infernos fielmente registada, porque mesmo nos seus piores momentos, Lowry nunca se renunciou a escrever, a reflectir sobre o papel a incrível realidade. Ao final da escrita do livro, a sua experiência mexicana havia-se tornado num monumento barroco de profundas ressonâncias simbólicas.

Livro do Mês de Agosto de 2009

2009 August 18
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Apresentamos o livro do Clube de Leitura para o mês de Agosto de 2009:

“Longe de Veracruz” de Enrique Vila-Matas

“No todo el mundo sabe que a Veracruz y a sus playas lejanas no pienso en la vida nunca volver. Fui feliz allí, el mes pasado, en noche de luna llena, en Los Portales, ni antes ni después de esa noche, en el último mes de julio de mi juventud. Pero no pienso en la vida nunca volver, pues sé muy bien que la nostalgia de un lugar sólo enriquece mientras se conserva como nostalgia, pero su recuperación significa la muerte. “

O que nos resta quando estamos longe de Veracruz, longe do Vulcão das nossas paixões do passado e, em suma, estamos já muito longe da vida? Ao menor dos três irmãos Tenorio, o narrador deste romance singular e fascinante, resta apenas a literatura como último refúgio, porque se encontra numa situação em quase tudo o que pode fazer é escrever. Derrotado na vida, este jovem de 27 anos com apenas um braço sente-se muito velho e cansado e, vendo que não tem nada melhor para fazer nem lugar mais apropriado onde cair morto, se dedica, no último canto do mundo, a recordar e escrever a história do seu ódio à residência familiar, casa e também sobre as suas tentativas fracassadas de ser amado em paisagens distintas e afastadas da monotonia dos dias repetidos.

Herói maltratado na novela da sua própria vida, o último Tenorio escreve, a meio caminho entre seu diário do desassossego e a memória da sua descida aos infernos, um romance que abraça sabiamente tanto a figura do despatriado moderno como esse rumor de fundo essencial que no porto de Veracruz subjaz por detrás de tanto refúgio e literatura: esse trágico segredo que os protagonistas de grandes e assombrados romances acabam sempre por descobrir.

Livro para o Mês de Julho de 2009

2009 July 3
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Apresentamos o livro do Clube de Leitura para o mês de Julho:

“O Caderno do Algoz” de Sandro William Junqueira

Publicado pela Editorial Caminho, o livro de Sandro William Junqueira, nascido em 1974 na Rodésia (hoje Zimbabwe), passa-se intencionalmente “num território desenquadrado”, não-identificado, como o autor indicou, e tem como personagens um carrasco (guarda prisional, que regista pensamentos e acontecimentos), um coveiro que sofre de conjuntivite crónica e não sabe rezar, um inspector que acredita em Deus e exerce o poder que detém, um anão que sofre de mau hálito e é o braço esquerdo (não o direito) do inspector e um inspector-adjunto que é estrábico e praticante de Yoga.

Há ainda um cão, vagabundo e amigo, que “preconiza um milagre”, um escritor que é condenado, um velho que “sabe o crime e o milagre” e “conhece como ninguém as leis do borboto”, um anjo (que, ao cair na terra, concretiza o seu desejo), um menino, uma mulher (mãe do menino e ex-mulher do algoz), um peixe que vive num aquário em casa do algoz, e a Primavera, a estação climática em que se passa a acção, marcada pela chuva e pelo vento.

É um romance de montagem do inconsciente: fragmentos de uma arquitectura humana, urbana e emocional. Nele encontramos um espaço/cidade/estado sem referências geográficas, temporais, históricas ou políticas. Há personagens que o habitam e se cruzam. Guiados por pontos cardeais: norte, sul, este, oeste. E reféns de uma única estação climática: primavera com chuva e vento. O encadeamento narrativo não obedece a uma estrutura linear. Mas, também, não é uma analepse consciente e planeada. É como se a cabeça que narra os acontecimentos tivesse sido acometida por uma amnésia súbita. E o que surge na memória na pós-amnésia são estilhaços e que o passado e o presente se confundem.

Sandro William Junqueira nasceu em 1974 em Umtali na Rodésia. Em 1976 volta para Portugal. Em 1986 foi viver para Portimão. Em 1998 começa a trabalhar como designer. Em 1999, juntamente com Paulo Quaresma, funda o grupo de teatro A GAVETA. Desde aí, trabalha como responsável artístico, encenador e actor. A partir de 2002, publica com regularidade poesia e contos em revistas e fanzines. É regularmente convidado para dizer poesia em recitais. Em 2007 inicia um trabalho regular em escolas e bibliotecas com a criação e interpretação de diversos ateliers e espectáculos vocacionados para a promoção do livro e da leitura. “O Caderno do Algoz”, publicado em 2009, é o seu primeiro romance.

Livro para o Mês de Abril de 2009

2009 April 1
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Apresentamos o livro do Clube de Leitura para o mês de Abril de 2009:

“Os Detectives Selvagens” de Roberto Bolaño

Arturo Belano e Ulisses Lima, os detectives selvagens, procuram a pista de Cesária Tinajero, a misteriosa escritora desaparecida no México nos anos imediatamente a seguir à Revolução, e essa busca - a viagem e as suas consequências - prolonga-se durante vinte anos, desde 1976 até 1996, o tempo canónico de qualquer errância, bifurcando-se através de múltiplos personagens e Continentes num romance onde há de tudo: amores e mortes, assassinatos e fugas turísticas, manicómios e universidades, desaparições e aparições.

Os seus cenários são o México, a Nicarágua, os Estados Unidos, a França, a Espanha, a Áustria, Israel, África, acompanhando sempre os detectives selvagens - poetas «desperados», traficantes ocasionais -, Arturo Belano e Ulisses Lima, os enigmáticos protagonistas deste livro que pode ler-se como um refinadíssimo thriller wellesiano, atravessado por um humor iconoclasta e feroz. Entre os personagens, destaca-se um fotógrafo espanhol no último degrau de desespero, um neonazi borderline, um toureiro mexicano reformado que vive no deserto, uma estudante francesa leitora de Sade, uma prostituta adolescente em fuga constante, uma prócere uruguaia no 68 latino-americano, um advogado galego ferido pela poesia, um editor mexicano perseguido por pistoleiros profissionais.

Livro para o Mês de Março de 2009

2009 March 4
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Apresentamos o livro do Clube de Leitura para o mês de Março de 2009:

“A Estrada” de Cormac McCarthy

Um pai e um filho caminham sozinhos pela América. Nada se move na paisagem devastada, excepto a cinza no vento. O frio é tanto que é capaz de rachar as pedras. O céu está escuro e a neve. quando cai, é cinzenta. O seu destino é a costa, embora não saibam o que os espera, ou se algo os espera. Nada possuem, apenas uma pistola para se defenderem dos bandidos que assaltam a estrada, as roupas que trazem vestidas, comida que vão encontrando - e um ao outro.

A Estrada é a história verdadeiramente comovente de uma viagem, que imagina com ousadia um futuro onde não há esperança, mas onde um pai e um filho, «cada qual o mundo inteiro do outro», se vão sustentando através do amor. Impressionante na plenitude da sua visão, esta é uma meditação inabalável sobre o pior e o melhor de que somos capazes: a destruição última, a persistência desesperada e o afecto que mantém duas pessoas vivas enfrentando a destruição total.

Romance pós-apocalíptico, A Estrada recebeu o prémio Pulitzer de 2007 e consagrou definitivamente o escritor, tendo sido colocado pela crítica ao lado de nomes consagrados como Philip Roth ou Don DeLillo como um dos maiores escritores americanos do séc. XXI.

Escritor avesso a entrevistas, Cormac McCarthy nasceu em Rhode Island, em 1933, nos Estados Unidos da América, vivendo actualmente em Santa Fé, com a mulher e o filho. Tem diversos romances traduzidos em português, como “Belos Cavalos”, “O Guarda do Pomar”, o impressionante “Meridiano de Sangue”, e “Este País não é para Velhos”, adaptado para o cinema pelos irmãos Cohen e que venceu o Óscar de Melhor Filme em 2007.

Reactivação das Actividades do Clube

2009 February 16
Posted by Nunovsky

Quem tem acompanhado este blog tem reparado que não têm havido novos posts desde há algum tempo.
De facto, o blog foi criado inicialmente com a ideia de criar um espaço de leitura e debate, um pouco como um clube que se reúne e discute à volta de um determinado livro, partilhando ideas, sentimentos e visões suscitadas por essa leitura.
No entanto, a fraca participação ao nível dos comentários, fez-me abandonar um pouco o blog dada a desmotivação que sentia por verificar que estava a “fazer a festa sozinho, a jogar os foguetes e a apanhar as canas”, como se diz na gíria popular.
Um comentário recente, fez-me mudar de ideias e decidir retomar as actividades do Clube de Leitura, mas em novos moldes.
Assim, passaremos a funcionar através de sugestões de leitura, que poderão ser comentadas por qualquer pessoa que visite o blog.
Vamos reiniciar novamente as actividades em Março, com a sugestão para o mês.
Até lá

Livro para o Mês de Outubro

2007 October 12
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Apresentamos o livro do Clube de Leitura para o mês de Outubro de 2007:

“Lolita” de Vladimir Nabokov

Nabokov tinha 56 anos quando recebeu, com “Lolita”, a notoriedade há tanto merecida. Mas não foi poupado ao absurdo escândalo que envolveu a sua publicação. Em 1954, muitas décadas depois de ter abandonado, contra a sua vontade, a sua amada Rússia, Vladimir Nabokov (1899-1977), termina o manuscrito de “Lolita”. No país de exílio, os Estados Unidos, entrega cópias do romance a quatro editoras. Todas recusam — alegam escândalo, obscenidade, eventual processo criminal. Nabokov, embora tivesse feito muitas renúncias ao longo da sua vida, não desiste. Envia o livro para uma pequenina editora, Olímpia Press, em Paris, onde vivera até 1940, e o editor não recusa o romance.

Em 1955, a “ousadia” concretiza-se e “Lolita” sai do prelo. E perante essa obra-prima — “Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade, meu pecado, minha alma”, assim começa o romance —, os leitores escavam trincheiras. De um lado, figuram aqueles que se deixam embalar na vertigem e no delírio de Humbert Humbert, oscilando entre a compaixão e o assombro; do outro, erguem-se o asco, a insistência em rotular o livro de pornográfico, a perseguição supostamente moralista daqueles que chamam a Nabokov, então com 56 anos, um “autor obsceno”. Ele, que escreveu, de forma magistral, a dor da infância perdida, a paixão proibida, a crueldade de amar e sentir esse amor como um pecado e um drama terrível, a tragédia que é a inexorabilidade do tempo. “Lolita” é uma confissão. A trágica confissão de um amor que aniquila, escrita por Humbert Humbert (H.H.) durante os seus dias de presídio, antes do julgamento por homicídio. Narrado na primeira pessoa, “Lolita” é um relato que leva, por vezes, o leitor a confrontar-se com enigmas — há momentos que envolvem dúvidas quanto à sua veracidade, situações que parecem derivadas da imaginação de H.H.

Escritor norte-americano de origem russa, nascido em 1899 e falecido em 1977, nascido numa família da antiga aristocracia, em 1919, a instabilidade produzida pela revolução bolchevique obrigou-o a abandonar a União Soviética. Exilou-se com a família na Inglaterra, França e Alemanha. Neste último país, escreveu, em russo, a primeira parte da sua obra literária, de entre a qual se destaca Mashenka e Glória.

Em 1940 partiu para os Estados Unidos da América, adquirindo a nacionalidade americana em 1945. Começou a escrever em inglês, mantendo, nas obras deste período, o fundo fantástico, a visão irónica da vida quotidiana e a mestria formal que já havia demonstrado, e almejou levar a cabo um retrato da sociedade norte-americana através das suas convenções culturais e posturas perante o sexo. São dignas de nota as narrativas: “O Dom”, “Convite para uma decapitação”, “The Real Life of Sebastian Knight”, “Lolita”, um grande êxito editorial transposto para o cinema por S. Kubrick e cujo argumento se baseia nos amores de um homem adulto por uma adolescente, “Pale Fir”, “Ada, or Ardor: A Family Chronicle” e “Speak Memory”.

Livro para o Mês de Setembro

2007 September 4
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Apresentamos o livro do Clube de Leitura para o mês de Setembro de 2007:

“O Amante” de Marguerite Duras

Um dia, eu já tinha uma certa idade, no hall de um prédio público, um homem veio até mim. Ele se apresentou e me disse: “Eu a conheço desde sempre. Todo mundo diz que a senhora era bonita quando jovem. Eu vim lhe dizer que, para mim, a senhora é mais bonita agora do que quando era jovem. Gosto menos de seu rosto de moça do que o de agora, devastado.”

Assim começa O Amante, romance que valeu a Marguerite Duras em 1984, o prémio Goncourt - o mais célebre dos prémios literários franceses. O Amante conta a descoberta do amor e do sexo por uma adolescente, filha de uma família de colonos falidos na Indochina francesa, nos anos 30. O amor proibido da menina branca, sua entrega a um jovem chinês rico, dez anos mais velho do que ela, é também uma forma de escapar à claustrofobia e à derrocada da família, o seu “envelhecimento” precoce, a descoberta da sua solidão. É também a história da própria escritora.

Marguerite Duras nasceu em Gia Dinh, na Indochina (agora Vietnam), em 1914, onde passou a infância e a adolescência. A autora irá ficar profundamente marcada pela paisagem e pela vida da antiga colónia francesa, frequentemente referidas na sua obra literária. O seu pai morreu quando tinha quatro anos de idade, e a sua mãe, uma professora, lutou arduamente para criar três filhos sozinha. Durante a adolescência, Marguerite Duras teve um caso com um homem chinês rico e retorna mais tarde a este período nos seus livros (nomeadamente O Amante). Aos 17 anos viajou para França, onde estudou Direito e Ciência Política no Sorbonne, formando-se em 1935. Durante a II Guerra Mundial, marguerite Duras tomou parte da da Resistência Francesa, filiando-se também no partido comunista.

Duras publica os seu primeiros livros em 1943 e 1944, Os Imprudentes e A Vida Tranquila, respectivamente. A partir de 1959 começa também a escrever argumentos para o cinema, dos quais Hiroshima meu amor é sem dúvida o mais conhecido e marcante. Em 1950, com Uma barragem contra o Pacífico, Duras esteve muito próxima de ganhar o Prémio Goncourt. É no entanto apenas 30 anos depois que a injustiça lhe é reparada, ganhando o prémio por unanimidade com o romance O Amante. Durante a década de 1980, Marguerite Duras apaixona-se por Yann Andréa Steinner, um homem 38 anos mais novo. Duras viverá com Yann até à sua morte em 1996, mas não sem antes atravessar um duro período em que permaneceu junto do seu marido Robert Antelme, depois de este ter sobrevivido milagrosamente a uma captura pela Gestapo. Este período serviu de base para uma colecção de histórias curtas, intitulada A Dor (de 1985), um grito literário sobre a pressão debaixo da qual viveu. Morreu os 81 anos de idade de câncer e foi sepultada no cemitério de Montparnasse.

Livro para o Mês de Agosto

2007 August 28
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Apresentamos o livro do Clube de Leitura para o mês de Agosto de 2007:

“Murphy” de Samuel Beckett

“Murphy é uma obra-prima cómica sem qualquer contenção ou complexo. É por isso que é tão valioso e raro o trabalho de Beckett. Aqui se vê a facilidade com que Beckett escreve, faz rir, conta e se deixa ir. A história de um amante que pensa de mais ou de menos — ou vice-versa — é tão engraçada e está tão bem escrita e tão bem servida pela tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo que chego a ter medo que afaste os leitores dos livros menos abertos de Beckett. Mas depois lembro-me desses livros e o medo desaparece. Não são menos abertos nem menos cómicos. Sem Murphy não seria possível sabermos isso”.
Miguel Esteves Cardoso

Romancista e dramaturgo irlandês, Samuel Barclay Beckett nasceu a 13 de Abril de 1906 na cidade de Dublin. Oriundo de uma família protestante abastada, estudou na Portora Royal School antes de ingressar no Trinity College da sua terra natal. Após ter conseguido o bacharelato em Estudos Franceses e Italianos, no ano de 1927, Beckett começou a trabalhar como professor em Belfast. Mudando-se para Paris, passou a frequentar a pequena comunidade literária de expressão britânica que se reunia na famosa livraria Shakespeare and Company de Sylvia Beach, onde conheceu James Joyce.
Em 1930 Beckett estreou-se como poeta, ao publicar Whoroscope. No ano seguinte reuniu uma colectânea de ensaios com o título Proust (1931) e, de regresso a Dublin, licenciou-se pelo Trinity College, o que valeu uma posição como docente de Francês nessa mesma instituição. A morte do pai trouxe-lhe uma herança considerável, recebida em anuidades, facto preponderante na decisão de abandonar a carreira académica em 1932, com o firme propósito de se dedicar inteiramente à escrita.
Julgando Londres um meio mais propício a oportunidades, mudou-se para esta cidade em 1933. Imiscuindo-se na boémia londrina, publicou, no ano seguinte, o seu primeiro romance, More Pricks Than Kicks (1934). Seguiu-se um período difícil na sua vida, marcado por visitas regulares a um psicanalista, entre os anos de 1935 e 1936. Em 1938 foi apunhalado por um proxeneta e hospitalizado. Nesse mesmo ano de 1938 publicou Murphy, obra em que Beckett analisava o mundo da prostituição. Com a deflagração da Segunda Guerra Mundial, Samuel Beckett partiu da Irlanda para a França, para se juntar às fileiras da Resistência mas, procurado pelos Nacional-Socialistas, foi obrigado a fugir para o Sul do país, escondendo-se no Roussillon durante dois anos na companhia de uma estudante de piano, Suzanne Dechevaux-Dumesnil, com quem viria eventualmente a casar em 1961.
Trabalhando como lavrador, Beckett continuou a escrever, elaborando o manuscrito do seu segundo romance, que veio a ser publicado em 1953 com o título Watt.
Finda a guerra, Beckett passou a escrever em francês, publicando uma trilogia narrativa composta por Molloy (1951), Malone Meurt (1951) e L’Innommable (1953), e as suas peças de teatro mais famosas, En Attendant Godot (1952), Fin De Partie (1957) e Oh Les Beaux Jours (1961). Estas obras consagraram Beckett como um dos nomes mais proeminentes do teatro do absurdo, lidando com temas complexos e existencialistas como a desilusão, o sofrimento e o absurdo da condição humana.
O ano de 1959 marca o regresso do autor à língua materna, publicando Krapp’s Last Tape, peça de teatro em que um velho se senta só num quarto a ouvir gravações do seu passado.
Beckett foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1969, e conta-se que terá utilizado a soma recebida pela Real Academia Sueca em auxílio de artistas necessitados.
Faleceu a 22 de Dezembro de 1989 após ter sido hospitalizado por problemas respiratórios.